- La névrose d'accueil -
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Amamos a vida não porque estamos acostumados
à vida, mas a amar. Há sempre alguma loucura no amor,
mas há sempre também alguma razão na loucura.
saepphire:
azulciano:

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"No palco, na praça, no circo, num banco de jardim. Correndo no escuro, pichado no muro. Você vai saber de mim." Chico Buarque 

se um dia eu virar de esquina
meu bem
é pra te olhar
por outros ângulos.

"Eu tenho medo. E só. Tenho medo de acabar virando um objeto frio e úmido no canto da sala. Minha respiração qualquer dia desses acaba virando uma surpresa. Desagradável surpresa empatando a mobília. A verdade é que aqui, vendo minha existência de cima como sempre vi, a vista é linda. Sou uma infiltração na minha própria vida, carente de remendos. Sou uma máquina de falar sobre saudade e amor. Nasci e me criei com choro preparado e previamente ensaiado, esperei nove meses dentro de uma solidão manchada com sangue, e gritei pro mundo inteiro me ouvir. Gritei tanto que todos os corredores da morte se calaram e todos os porcos morreram sem lágrimas. Era luto. Pena. Tive medo, tenho medo, sempre terei medo. Medo por ver pessoas estranhas e me reconhecer em cada rosto e em cada desprezo latente. Sou uma máquina sem óleo, amor e saudade são vícios, e vício leva o ser humano ao êxtase e a decadência. Sentimento alcoólatra que se embrigada de perfume para fazer a cirrose ser poesia. Banalização do atestado de óbito. Coisa mais ridícula é ter medo de si e dos próprios medos. E tenho. Sou condicionado a viver num coronelismo sentimental. Meu peito é oligarquia. Ah, se tivesse em mim todos os amores que inventei e todos os sofrimentos que senti. Se tivesse em mim pelo menos metade da angústia e dessa solidão que me esmaga o peito todas as noites, mas não, não tenho. Se tivesse, se eu pelo menos tivesse uma parte ou terça parte daquilo que vivi ainda habitando dentro dessa carne elástica, impediria o próximo adeus que vai me escrever. Eu imploraria, sim. Eu imploraria pra que alguém, qualquer pessoa, não fosse embora. Eu me jogaria na frente de um pedestre e choraria até ser preso, ou até ele criar raízes. Eu pediria mais desculpas, menos revolta, eu viraria vegetariano, eu seria feliz. Acontece, eu sei, que se esse amor existisse, que se essa saudade que eu digo sentir se fizesse presente e palpável, se eu fosse máquina não alienada, eu nasceria ontem e morreria amanhã. Não daria tempo. Não daria tempo nem sequer de explodir. Minhas vísceras e minha alma são recheadas de hipóteses, e é por isso que tenho medo. Tenho medo de ser o que não sei. Acordo amanhã sem saber o que fui hoje. Porque sou máquina e meu amor se move por terceiros, por quartos, por quintos, até descobrir que os números são infinitos, e morrer de exaustão. O que me falta é domesticar esse emaranhado de barba, DNA e aspas que encontro atrás do espelho. Prefiro me reconhecer no rosto dos outros, porque sou estranho a mim mesmo. Sou alheio. Avulso. Sou máquina e meu choro funciona como tinta e papel. Mas tinta acaba. E minha tristeza fica pela metade. É por isso que falo sobre o que não vivi. O que vivo eu não sei. Nunca consegui completar todas as linhas. Porque tenho medo. Não tenho paciência e não tenho pulso, porque parte de mim é só humano e ser humano significa ter medo de acabar virando só máquina. Alguém se foi, alguém se vai. Todos os dias. Eu só não sei quem. E a saudade é o que me faz viver e tentar descobrir qual parte de mim está doendo." Cinzentos 

Kirsten Dunst, A.J Cook, Hanna Hall, Chelse Swain and Leslie Hayman on the set of The Virgin Suicides, director: Sofia Coppola, 1999.
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